Era um sábado de sol em Los Angeles, com a cidade fervendo pelos X-Games e à espreita para o festival que o Rage Against the Machine organizou, pela primeira vez, para tratar de temas político-sociais olvidados pela mídia e que, não raro, clamam por... REVOLUÇÃO.
Vou me esforçar para deixar de lado esse aspecto político-social, o que não é fácil para mim, e vou tentar escrever apenas sobre a parte musical do que lá aconteceu. Foi épico. Now TESTIFY!
Foi no Festival SWU, ano passado, meio de surpresa, que vi o Rage pela primeira vez. Pegou forte. É muita energia, muita força, a turba enfurecida se zumbifica, somos menos humanos e um pouco mais animais no meio daquilo tudo. É como um renascer sem parte dessa programação metódica que aprendemos nas escolas e na maior parte das fontes da cultura ocidental, é quase como um passeio rápido pelo estado cru do ser humano, aquela condição história (e de fato esquecida) em que não há consumo, bens, coisas, diferenças... somos apenas serer humanos, iguais e juntos, sem ter ou querer... somos apenas humanos!
E agora foi tudo isso confirmado e ampliado. O show do Rage é um testemunho da RAIVA contida que todos temos em algum lugar dentro de nós, mas foi limitada, segurada... no seu sentido mais primordial, talvez seja o sentimento mais primário da condição humana, mas há milênios é controlado em prol de tudo o que chamamos sociedade - e com méritos e razão, sem dúvida alguma!
Mas no show do Rage, isso acada. Limites se esvaem, controle se perde, "segurança" some, razão se limita... num show do Rage somos mais zumbis do que humanos. Toda a raiva e os sentimenos contidos são liberados em algum momento nessa catarse, como a água limpa e calma em aquecimento que, de uma hora outra, entra em bulição e se transorma em outra coisa, um amontoado de bolhas, um risco de queima, a própria força da natureza em transformação! E, acredite, isso é ESPETACULAR! É uma experiência sem igual!
Num show do Rage, talvez mais do que em qualquer outro grande evento, forma-se entre os presentes e entre a banda e o público um vínculo voraz, extremo, uma ligação que não se vê mais no mundo de hoje. A ligação dos sentidos básicos da compreensão primária do mundo a volta.
Coletivamente, tornamo-nos todos parte de algo muito maior. De verdade! Sente-se o chão tremer POR NÓS, sente-se o clamor do POVO sendo POVO, sente-se nas linhas hipnotizantes de baixo e nas batidas fortes da bateria um passeio pelo medo e depois pela urgência de se viver... não sozinhos, cada qual em seu sofá ou na praia paradisiaca que deve ser o sonho individual de muitos dos presentes. É um sonho e uma vontade de viver coletiva, compartilhada, em que somos partes do todo e o todo não o é senão conosco.
É com efeito inebriante e esquisita a atmosfera inicial desse show, no seu desenrolar aparentmente beligerante, a incitar a hostilidade palpável e deixando para trás um cheiro pesado de testosterona reprimida.
Aposto que muitos de nós sentiam mas não compreendiam como, mas alguma coisa estava errada. Não ali, mas em tudo que nos trouxe até ali. No mundo em geral. E que esse
algo errado estava para ser revelado, de algum modo.
As massas pareciam prontas a ferver e a sua temperatura a aumentar na medida em que o céu escurecia. Uma estrela vermelha subia no palco, com as luzes já apagadas por completo, enquanto uma sirene alta e frequente, quase hipnotizante, tocava alto e ecoava pelo operário, pelo homem simples, pelo ser humano em completa condição de igualdade, que existe dentro de nós...
E então, RAGE veio ao palco...
De algum modo, já nos primeiros acordes graves de Testify toda aquela messa estava unificada em apenas um saltar, um frenético, fervoroso e caudaloso tsunami de gente.
E, assim, a mágica veio à tona... e era uma coisa maravilhosa de ver. Milhares de pessoas soltando uma fúria contida não um contra o outro, mas basicamente para a terra, para o ar, para o universo... como uma usina nuclear que solta aos poucos o material radioativo, de repente soltando tudo de uma vez só.
Milhares de pessoas batendo o pé, se mexendo, correndo, pulando, agitando braços e pernas como ratos em gaiolas transparentes, enchendo de vida em movimento o ar da noite.
O tempo todo, o Rage (ou melhor, o conjunto inseparável formado por Rage e nós) solta ferocidade e júbilo, mas nem por isso se deixa de ver sorrisos em muitos rostos e uma sensação que só posso imaginar como algo belo e maravilhosamente eterno.

Tão monstruoso, na verdade, que aquela energia toda parecia imediatamente soprar e atacar o PA, que simplesmente apagou silenciando tudo por breves momentos ainda na metade de "Testify". Como no SWU, a força liberada pelas gentes era tão grande, que metaforicamente fez cair a energia e queimou o som do ambiente.
A banda não parou, embora por alguns segundos só se ouvisse silêncio pra longe do palco. Foi um alívio no Coliseu quando o PA foi restabelecido e literalmente chutou o som de volta à vida - permanecendo dali em diante em alto volume e com a clareza fonética entre vozes e instrumentos tão nítida, tão bela, tão distinta, que se faz difícil imaginar como uma banda pode ser ao mesmo tempo tão alta e com notas tão audíveis.
Melhor ainda, o Rage nem recuou perante a situação de som momentaneamente perdido - eles continuavam batendo forte na distância e meio que trazendo de novo, com o retorno do som, toda a aura daquele lugar para um pico, vários picos, furiosos e inspirados - um após o outro.
Todo mundo disparou com força total: Brad Wilk convocou e detonou seus bumbos, caixas e pratos como o trovão de John Bonham, em perfeita sincronia, ainda, com o tempero e a cadência, o fleetness funky que se pode encontrar em muito poucos hard-rock bateristas: Matt Cameron, por exemplo, ou Chad Smith. O mesmo ou mais se pode dizer do baixo de Tim Commerford que parecia mentalmente teleportado para outro lugar algumas vezes - completamente integrado na dinâmica da banda, visivelmente sentindo algo indescritível. E que linhas harmoniosamente pesadas e dinâmicas têm esse baixo!
Tom Morello, por sua vez, continua a criar sons de guitarra que são totalmente originais. Não é tanto que o que ele está fazendo que chama atenção por ser complexo (embora seja e apesar de alguns solos em sua Stratocaster rabiscada mostrarem o quão ágil seu dedilhado pode ser). Pelo contrário, é como ele sem medo alimenta a energia eletrificado da guitarra em si que encanta os olhos e ouvidos.
Ele personifica, controla, reúne e solta de novo, em sonoras notas, todos os sons possíveis que esse instrumento mágico pode fazer. Como um mago da sonoridade elétrica, Tom Morello tira sons literalmente impossíveis não só de cordas, mas também de plugues, conectores, hastes, mocrofonias...
Tudo sobre o seu machado é usado para cortar e cadenciar o tom: os interruptores, as cordas apertadas pela botões de ajuste, a ponta quente do cabo e do amp... No entanto, embora evidentemente experimental na criação dos sons, ele ainda mostra e convence por demais de suas raízes no rock tocando seu riffage infeccioso e pesado como ninguém.
Ver Tom Morello ao vivo, olhando para o que ele faz com a guitarra enquanto os ouvidos tentam fazer a ligação entre a cena bizarra e o som que entra para o cérebro processar, é como se deslumbrar com um passe de mágica de notas em alta, que depois marcham para dentro e fora da cabeça em maravilhosos engarrafamentos de distorções dignos de Jimmy Page e Angus Young, talvez as duas melhores palhetadas da história do rock. Pois Tom Morello palheta como eles, riffa como Slash, Cobain ou Grohl e sola como Hendrix, Lifeson ou Andy Summers. Tom Morello é Deus.

Mas Deus não anda sozinho, ele tem um porta-voz em tão alta conta que os céus descem à terra num show do Rage.
Zazk De la Rocha, enérgico, pulante, erudito e enigmático, continua a ser o coringa, o seu humor e acidez são ambos afetados por uma necessidade premente de não se calar perante o comodismo do mundo e evocam o teor dos tempos, o fim dos tempos e o seu próprio reinício.
Ele parecia eufórico: olhando, recebendo, sentindo e devolvendo filtrada a raiva toda daquele ar, nessa que foi a maior audiência que a banda já acumulou em sua cidade natal. Zack estava forte e vigoroso, como sempre, mas nitidamente feliz. Talvez seja a ampla sensação de dever cumprido...
Certamente que ele não foi menos vigoroso por estar tão feliz - se alguma coisa se fez notar foi a intensidade de suas declarações ("ALL HELL CAN'T STOP US NOW!", "Your anger is a gift", "May the riot be the voice of the unheard!", "WAKE UUUUUP", etc...) e tudo foi chutado mais alto e mais forte por nós e para nós, por causa da célebre ocasião.
Os gritos de injustiça, a voz da necessária rebelião contra a merda toda que vivemos, mesmo as falas sobre todos os tópicos de familiar conhecimento dos fãs do Rage estão ressoando mais arrepiantes do que nunca até agora, e talvez para sempre, nas cabeças de todos os presentes, como se todos os anos de raiva contida, massacres, putarias em geral e guerras que vêm ocorrendo desde 1991 quando nasceu o Rage, estivessem finalmente recebendo o golpe que merecem: “Mass graves for the pump and the price is set... and the price is set!” realmente!
Seu momento mais agudo, porém, veio no meio de "Wake Up" no demasiado cedo final do set principal. Foi um discurso digno dos maiores líderes do mundo, se me permite opinar... a banda reduziu o tom e o volume, num arranjo de fundo mais cadenciado (mas nem por isso "leve") e Zack introduziu sua verborragia de capitão de uma massa turbulena que precisa de um caminho a seguir...
“There's a tension brewing in this city again...” alertou repetidamente. “Ritzy hotels are going up downtown … and inside those hotels there are empty rooms.” Foreclosure estão por toda parte, e as pessoas estão a ser “denied proper education because money is being diverted to fight illegal wars.”
É uma tensão, diz, como já se viu em outros tempos e que exige intervenção imediata daqueles que têm, ainda, ação em seu peito e coração para explodir... Sua mensagem gritou para o poder-dominante que continua o mesmo, clamando de nós e por nós: WAKE UP. "O que você colhe é o que você semeia", concluiu.

Afinal, era uma performance daquelas épicas, históricas, que viverão para sempre por conta da força com que marcam as 60 mil pessoas ali presentes.
Por que apenas 14 músicas em cerca de 90 minutos para um evento tão auspicioso? Foram mais ou menoas as mesmas 14 músicas que eles têm tocado desde a reunião em 2007 no Coachella, e praticamente na mesma ordem. Não seria esta ocasião especial o suficiente para mudar e aumentar esse setlist?
Por outro lado, mesmo um set de três horas em que tudo do seu catálogo relativamente escasso fosse tocado, não alteraria o fato de que este foi um dia épico no Coliseu.
Foi um desempenho digno do aniversário de 20 anos do Rage e se apresentou, no fundo, como um partido de militância, como uma necessária re-educação sobre o que é o mundo de hoje - e ele não é apenas a imagem que se vê na TV.
Houve momentos em que foi possível contar de 18 a 20 imensas rodas de pogo, algumas com umas 2 mil pessoas cada, e não existe outra conclusão que não a de que é o maior e mais forte espetáculo roqueiro da Terra.
Punhos ao céu, indignação, vontade de mudança, uma mítica indumentária para a revolução, pacífica se possível, tudo isso é parte de um todo que não se descreve, apenas se vive ou não.
Eu vivi... e meu testemunho sobre ele ecoará por todo os tempos, tenho certeza.
Rage Against the Machine Setlist: Testify / Bombtrack / People of the Sun / Know Your Enemy / Bulls on Parade / Township Rebellion / Bullet in the Head / Down Rodeo / Guerrilla Radio / Calm Like a Bomb / Sleep Now in the Fire / Wake Up
Encore: Freedom / Killing in the Name
Vou me esforçar para deixar de lado esse aspecto político-social, o que não é fácil para mim, e vou tentar escrever apenas sobre a parte musical do que lá aconteceu. Foi épico. Now TESTIFY!
Foi no Festival SWU, ano passado, meio de surpresa, que vi o Rage pela primeira vez. Pegou forte. É muita energia, muita força, a turba enfurecida se zumbifica, somos menos humanos e um pouco mais animais no meio daquilo tudo. É como um renascer sem parte dessa programação metódica que aprendemos nas escolas e na maior parte das fontes da cultura ocidental, é quase como um passeio rápido pelo estado cru do ser humano, aquela condição história (e de fato esquecida) em que não há consumo, bens, coisas, diferenças... somos apenas serer humanos, iguais e juntos, sem ter ou querer... somos apenas humanos!
E agora foi tudo isso confirmado e ampliado. O show do Rage é um testemunho da RAIVA contida que todos temos em algum lugar dentro de nós, mas foi limitada, segurada... no seu sentido mais primordial, talvez seja o sentimento mais primário da condição humana, mas há milênios é controlado em prol de tudo o que chamamos sociedade - e com méritos e razão, sem dúvida alguma!
Mas no show do Rage, isso acada. Limites se esvaem, controle se perde, "segurança" some, razão se limita... num show do Rage somos mais zumbis do que humanos. Toda a raiva e os sentimenos contidos são liberados em algum momento nessa catarse, como a água limpa e calma em aquecimento que, de uma hora outra, entra em bulição e se transorma em outra coisa, um amontoado de bolhas, um risco de queima, a própria força da natureza em transformação! E, acredite, isso é ESPETACULAR! É uma experiência sem igual!
Num show do Rage, talvez mais do que em qualquer outro grande evento, forma-se entre os presentes e entre a banda e o público um vínculo voraz, extremo, uma ligação que não se vê mais no mundo de hoje. A ligação dos sentidos básicos da compreensão primária do mundo a volta.
Coletivamente, tornamo-nos todos parte de algo muito maior. De verdade! Sente-se o chão tremer POR NÓS, sente-se o clamor do POVO sendo POVO, sente-se nas linhas hipnotizantes de baixo e nas batidas fortes da bateria um passeio pelo medo e depois pela urgência de se viver... não sozinhos, cada qual em seu sofá ou na praia paradisiaca que deve ser o sonho individual de muitos dos presentes. É um sonho e uma vontade de viver coletiva, compartilhada, em que somos partes do todo e o todo não o é senão conosco.
É com efeito inebriante e esquisita a atmosfera inicial desse show, no seu desenrolar aparentmente beligerante, a incitar a hostilidade palpável e deixando para trás um cheiro pesado de testosterona reprimida.
Aposto que muitos de nós sentiam mas não compreendiam como, mas alguma coisa estava errada. Não ali, mas em tudo que nos trouxe até ali. No mundo em geral. E que esse
algo errado estava para ser revelado, de algum modo.
As massas pareciam prontas a ferver e a sua temperatura a aumentar na medida em que o céu escurecia. Uma estrela vermelha subia no palco, com as luzes já apagadas por completo, enquanto uma sirene alta e frequente, quase hipnotizante, tocava alto e ecoava pelo operário, pelo homem simples, pelo ser humano em completa condição de igualdade, que existe dentro de nós...
E então, RAGE veio ao palco...
De algum modo, já nos primeiros acordes graves de Testify toda aquela messa estava unificada em apenas um saltar, um frenético, fervoroso e caudaloso tsunami de gente.
E, assim, a mágica veio à tona... e era uma coisa maravilhosa de ver. Milhares de pessoas soltando uma fúria contida não um contra o outro, mas basicamente para a terra, para o ar, para o universo... como uma usina nuclear que solta aos poucos o material radioativo, de repente soltando tudo de uma vez só.
Milhares de pessoas batendo o pé, se mexendo, correndo, pulando, agitando braços e pernas como ratos em gaiolas transparentes, enchendo de vida em movimento o ar da noite.
O tempo todo, o Rage (ou melhor, o conjunto inseparável formado por Rage e nós) solta ferocidade e júbilo, mas nem por isso se deixa de ver sorrisos em muitos rostos e uma sensação que só posso imaginar como algo belo e maravilhosamente eterno.

Tão monstruoso, na verdade, que aquela energia toda parecia imediatamente soprar e atacar o PA, que simplesmente apagou silenciando tudo por breves momentos ainda na metade de "Testify". Como no SWU, a força liberada pelas gentes era tão grande, que metaforicamente fez cair a energia e queimou o som do ambiente.
A banda não parou, embora por alguns segundos só se ouvisse silêncio pra longe do palco. Foi um alívio no Coliseu quando o PA foi restabelecido e literalmente chutou o som de volta à vida - permanecendo dali em diante em alto volume e com a clareza fonética entre vozes e instrumentos tão nítida, tão bela, tão distinta, que se faz difícil imaginar como uma banda pode ser ao mesmo tempo tão alta e com notas tão audíveis.
Melhor ainda, o Rage nem recuou perante a situação de som momentaneamente perdido - eles continuavam batendo forte na distância e meio que trazendo de novo, com o retorno do som, toda a aura daquele lugar para um pico, vários picos, furiosos e inspirados - um após o outro.
Todo mundo disparou com força total: Brad Wilk convocou e detonou seus bumbos, caixas e pratos como o trovão de John Bonham, em perfeita sincronia, ainda, com o tempero e a cadência, o fleetness funky que se pode encontrar em muito poucos hard-rock bateristas: Matt Cameron, por exemplo, ou Chad Smith. O mesmo ou mais se pode dizer do baixo de Tim Commerford que parecia mentalmente teleportado para outro lugar algumas vezes - completamente integrado na dinâmica da banda, visivelmente sentindo algo indescritível. E que linhas harmoniosamente pesadas e dinâmicas têm esse baixo!
Tom Morello, por sua vez, continua a criar sons de guitarra que são totalmente originais. Não é tanto que o que ele está fazendo que chama atenção por ser complexo (embora seja e apesar de alguns solos em sua Stratocaster rabiscada mostrarem o quão ágil seu dedilhado pode ser). Pelo contrário, é como ele sem medo alimenta a energia eletrificado da guitarra em si que encanta os olhos e ouvidos.
Ele personifica, controla, reúne e solta de novo, em sonoras notas, todos os sons possíveis que esse instrumento mágico pode fazer. Como um mago da sonoridade elétrica, Tom Morello tira sons literalmente impossíveis não só de cordas, mas também de plugues, conectores, hastes, mocrofonias...
Tudo sobre o seu machado é usado para cortar e cadenciar o tom: os interruptores, as cordas apertadas pela botões de ajuste, a ponta quente do cabo e do amp... No entanto, embora evidentemente experimental na criação dos sons, ele ainda mostra e convence por demais de suas raízes no rock tocando seu riffage infeccioso e pesado como ninguém.
Ver Tom Morello ao vivo, olhando para o que ele faz com a guitarra enquanto os ouvidos tentam fazer a ligação entre a cena bizarra e o som que entra para o cérebro processar, é como se deslumbrar com um passe de mágica de notas em alta, que depois marcham para dentro e fora da cabeça em maravilhosos engarrafamentos de distorções dignos de Jimmy Page e Angus Young, talvez as duas melhores palhetadas da história do rock. Pois Tom Morello palheta como eles, riffa como Slash, Cobain ou Grohl e sola como Hendrix, Lifeson ou Andy Summers. Tom Morello é Deus.

Mas Deus não anda sozinho, ele tem um porta-voz em tão alta conta que os céus descem à terra num show do Rage.
Zazk De la Rocha, enérgico, pulante, erudito e enigmático, continua a ser o coringa, o seu humor e acidez são ambos afetados por uma necessidade premente de não se calar perante o comodismo do mundo e evocam o teor dos tempos, o fim dos tempos e o seu próprio reinício.
Ele parecia eufórico: olhando, recebendo, sentindo e devolvendo filtrada a raiva toda daquele ar, nessa que foi a maior audiência que a banda já acumulou em sua cidade natal. Zack estava forte e vigoroso, como sempre, mas nitidamente feliz. Talvez seja a ampla sensação de dever cumprido...
Certamente que ele não foi menos vigoroso por estar tão feliz - se alguma coisa se fez notar foi a intensidade de suas declarações ("ALL HELL CAN'T STOP US NOW!", "Your anger is a gift", "May the riot be the voice of the unheard!", "WAKE UUUUUP", etc...) e tudo foi chutado mais alto e mais forte por nós e para nós, por causa da célebre ocasião.
Os gritos de injustiça, a voz da necessária rebelião contra a merda toda que vivemos, mesmo as falas sobre todos os tópicos de familiar conhecimento dos fãs do Rage estão ressoando mais arrepiantes do que nunca até agora, e talvez para sempre, nas cabeças de todos os presentes, como se todos os anos de raiva contida, massacres, putarias em geral e guerras que vêm ocorrendo desde 1991 quando nasceu o Rage, estivessem finalmente recebendo o golpe que merecem: “Mass graves for the pump and the price is set... and the price is set!” realmente!
Seu momento mais agudo, porém, veio no meio de "Wake Up" no demasiado cedo final do set principal. Foi um discurso digno dos maiores líderes do mundo, se me permite opinar... a banda reduziu o tom e o volume, num arranjo de fundo mais cadenciado (mas nem por isso "leve") e Zack introduziu sua verborragia de capitão de uma massa turbulena que precisa de um caminho a seguir...
“There's a tension brewing in this city again...” alertou repetidamente. “Ritzy hotels are going up downtown … and inside those hotels there are empty rooms.” Foreclosure estão por toda parte, e as pessoas estão a ser “denied proper education because money is being diverted to fight illegal wars.”
É uma tensão, diz, como já se viu em outros tempos e que exige intervenção imediata daqueles que têm, ainda, ação em seu peito e coração para explodir... Sua mensagem gritou para o poder-dominante que continua o mesmo, clamando de nós e por nós: WAKE UP. "O que você colhe é o que você semeia", concluiu.

Afinal, era uma performance daquelas épicas, históricas, que viverão para sempre por conta da força com que marcam as 60 mil pessoas ali presentes.
Por que apenas 14 músicas em cerca de 90 minutos para um evento tão auspicioso? Foram mais ou menoas as mesmas 14 músicas que eles têm tocado desde a reunião em 2007 no Coachella, e praticamente na mesma ordem. Não seria esta ocasião especial o suficiente para mudar e aumentar esse setlist?
Por outro lado, mesmo um set de três horas em que tudo do seu catálogo relativamente escasso fosse tocado, não alteraria o fato de que este foi um dia épico no Coliseu.
Foi um desempenho digno do aniversário de 20 anos do Rage e se apresentou, no fundo, como um partido de militância, como uma necessária re-educação sobre o que é o mundo de hoje - e ele não é apenas a imagem que se vê na TV.
Houve momentos em que foi possível contar de 18 a 20 imensas rodas de pogo, algumas com umas 2 mil pessoas cada, e não existe outra conclusão que não a de que é o maior e mais forte espetáculo roqueiro da Terra.
Punhos ao céu, indignação, vontade de mudança, uma mítica indumentária para a revolução, pacífica se possível, tudo isso é parte de um todo que não se descreve, apenas se vive ou não.
Eu vivi... e meu testemunho sobre ele ecoará por todo os tempos, tenho certeza.
Rage Against the Machine Setlist: Testify / Bombtrack / People of the Sun / Know Your Enemy / Bulls on Parade / Township Rebellion / Bullet in the Head / Down Rodeo / Guerrilla Radio / Calm Like a Bomb / Sleep Now in the Fire / Wake Up
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